Brizola foi o inimigo número um da mídia
brasileira. Seu nacionalismo, sua retidão, sua fixação pelos desfavorecidos e sua
luta pela educação – além da excelente imagem pública que construiu -
precisavam ser destruídos porque ele almejava a presidência. O cerco midiático
foi tal que ele precisou criar os “Tijolões”, espaço pago nos grandes jornais,
para tentar furar o bloqueio. Brizola combateu de peito aberto Roberto Marinho,
da Globo, e os Civita da Abril, em uma luta pioneira e solitária. Hoje a luta pela
democratização dos meios de comunicação do Brasil está nas ruas. Por isso é
importante ler este texto, de Leandro Severo, na
“Carta Maior”, explicando porque a mídia brasileira – nos momentos cruciais do
país – sempre se inclinou para o golpismo e a traição aos interesses nacionais.
(OM)
Em 1941, enquanto milhões de homens e
mulheres derramavam seu sangue pela liberdade nos campos da Europa e da União
Soviética, a elite dos círculos financeiros dos Estados Unidos já traçava seus
planos para o pós-guerra. Como afirmou Nelson Rockefeller, filho do magnata do
petróleo John D. Rockefeller, em memorando que apresentava sua visão ao
presidente Roosevelt: “Independente do resultado da guerra, com uma vitória
alemã ou aliada, os Estados Unidos devem proteger sua posição internacional
através do uso de meios econômicos que sejam competitivamente eficazes…”
(COLBY, p.127, 1998).
Seu objetivo: o domínio do
comércio mundial, por meio da ocupação dos mercados e da posse das principais
fontes de matéria-prima. Anos mais tarde o ex-secretário de imprensa do
Congresso norte-americano, Gerald Colby, sentenciava sobre Rockefeller: “No
esforço para extrair os recursos mais estratégicos da América Latina com
menores custos, ele não poupava meios” (COLBY, p.181, 1998).
Neste
mesmo ano, Henry Luce, editor e proprietário de um complexo de comunicações que
tinha entre seus títulos as revistas Time, Life e Fortune, convocou os
norte-americanos a “aceitar de todo o coração nosso dever e oportunidade, como
a nação mais poderosa do mundo, o pleno impacto de nossa influência para
objetivos que consideremos convenientes e por meios que julguemos apropriados”
(SCHILLER, p.11, 1976). Ele percebeu, com clareza, que a união do poder
econômico com o controle da informação seria a questão central para a formação
da opinião pública, a nova essência do poder nacional e internacional.
Evidentemente
para que os planos de ocupação econômica pelas corporações norte-americanas
fossem alcançados havia uma batalha a ser vencida: Como usurpar a independência
de nações que lutaram por seus direitos? Como justificar uma postura
imperialista do país que realizou a primeira insurreição anticolonial?
A
resposta a esta pergunta foi dada com rigor pelo historiador Herbert Schiller:
“Existe um poderoso sistema de comunicações para assegurar nas áreas
penetradas, não uma submissão rancorosa, mas sim uma lealdade de braços
abertos, identificando a presença norte-americana com a liberdade – liberdade
de comércio, liberdade de palavra e liberdade de empresa. Em suma, a
florescente cadeia dominante da economia e das finanças norte-americanas
utiliza os meios de comunicação para sua defesa e entrincheiramento onde quer
que já esteja instalada e para sua expansão até lugares onde espera tornar-se
ativa” (SCHILLER, p.13, 1976).
Foi
exatamente ao que seu setor de comunicações se dedicou. Estava com as costas
quentes, já que as agências de publicidade norte-americanas cuidavam das marcas
destinadas a substituir as concorrentes europeias arrasadas pela guerra. O
setor industrial dos EUA havia alcançado um vertiginoso aumento de 450% em seu lucro líquido no período 1940-1945,
turbinado pelos contratos de guerra e subsídios governamentais. Com esta
plataforma invadiram a América Latina e o mundo.
Com
o suporte do coordenador de Assuntos Interamericanos (CIIA), Nelson
Rockefeller, mais de 1.200 donos de jornais latinos recebiam, de forma
subsidiada, toneladas de papel de imprensa, transportada por navios
norte-americanos. Além disso, milhões de dólares em anúncios publicitários das
maiores corporações eram seletivamente distribuídos. É claro que o papel e a
publicidade não vinham sozinhos, estavam acompanhados de uma verdadeira
enxurrada de matérias, reportagens, entrevistas e releases preparadas pela
divisão de imprensa do Departamento de Estado dos EUA.
A
vontade de conquistar as novas “colônias” e ocupar novos territórios como
haviam feito no século anterior, no velho oeste, não tinha limites. No Brasil,
circulava desde 1942, a revista Seleções (do Reader’s Digest), trazida por
Robert Lund, de Nova Iorque. A revista, bem como outras publicações
estrangeiras, pagou os devidos direitos aduaneiros por se tratar de produtos
importados, mas solicitou, e foi atendida pelo procurador da República,
Temístocles Cavalcânti, o direito de ser editada e distribuída no Brasil, com o
argumento de ser uma revista sem implicações políticas e limitada a publicar
conteúdos culturais e científicos. Assim começou a tragédia.
Logo
chegou o grupo Vision Inc., também de Nova Iorque, com as revistas Visão,
Dirigente Industrial, Dirigente Rural, Dirigente Construtor e muitos outros
títulos que vinham repletos de anúncios das corporações industriais. Um fato
bastante ilustrativo foi o da revista brasileira Cruzeiro Internacional,
concorrente da Life International, que apesar de possuir grande circulação,
nunca foi brindada com anúncios, enquanto a concorrente norte-americana
anunciava produtos que, muitas vezes, nem sequer estavam à venda no Brasil.
Ficava
claro que os critérios até então estabelecidos para o mercado publicitário,
como tempo de circulação efetiva, eficiência de mensagem e comprovação de
tiragem, de nada adiantavam. O que estava em jogo era muito maior.
Um
papel importantíssimo na ocupação dos novos mercados foi desempenhado pelas
agências de publicidade norte-americanas. McCann-Erickson e J. Walter Thompson
eram as principais e tinham seu trabalho coordenado diretamente pelo Departamento
de Estado. Para se ter uma ideia, a McCann-Erickson, nos anos de 1960, possuía
70 escritórios e empregava 4.619 pessoas, em 37 países, já a J. Walter Thompson
tinha 1.110 funcionários, somente na sede de Londres. Os Estados Unidos tinham
46 agências atuando no exterior, com 382 filiais. Destas 21 agências em
sociedade com britânicos, 20 com alemães ocidentais e 12 com franceses. No
Brasil atuavam 15 agências, todas elas com instruções absolutamente claras de
quem patrocinar.
No
início dos anos de 1950, Henry Luce, do grupo Time-Life, já estava luxuosamente
instalado em sua nova sede de 70 andares na área mais nobre de Manhattan,
negócio imobiliário que fechou com Nelson Rockefeller e seu amigo Adolf Berle,
embaixador norte-americano no Brasil na época do primeiro golpe contra o
presidente Getulio Vargas. Luce mantinha fortes relações com os irmãos César e
Victor Civita, ítalo-americanos nascidos em Nova Iorque. César foi para a
Argentina em 1941 onde montou a Editorial Abril, como representante da companhia
Walt Disney, já Victor, em 1950, chega ao Brasil e organiza a Editora Abril.
Neste mesmo período seu filho, Roberto Civita, faz um estágio de um ano e meio
na revista Time, sob a tutela de Luce e logo retorna para ajudar o pai.
Poucos
anos depois, o mercado editorial brasileiro está plenamente ocupado por
centenas de publicações que cantavam em prosa e verso o american way of life.
Somente a Abril, financiada amplamente pelas grandes empresas norte-americanas,
edita diversas revistas: Cláudia, Quatro Rodas, Capricho, Intervalo, Manequim,
Transporte Moderno, Máquinas e Metais, Química e Derivados, Contigo, Noiva,
Mickey, Pato Donald, Zé Carioca, Almanaque Tio Patinhas, a Bíblia mais bela do
mundo, além de diversos livros escolares.
Em
1957, uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados, comprova
que O Estado de S.Paulo, O Globo e Correio da Manhã foram remunerados pela
publicidade estrangeira para mover campanhas contra a nacionalização do
petróleo.
Em
1962, o grupo Time-Life encontra seu parceiro ideal para entrar de vez no
principal ramo das comunicações, a televisão. A recém-fundada TV Globo, de
Roberto Marinho. Era uma estranha sociedade. O capital da Rede Globo era de 600
milhões de cruzeiros, pouco mais de 200 mil dólares, ao câmbio da época. O
aporte dado “por empréstimo” pela Time-Life era de 6 milhões de dólares e a
empresa tinha um capital 10 mil vezes maior.
Como
denunciou o deputado João Calmon, presidente da Associação Brasileira de
Empresas de Rádio e Televisão (Abert): “Trata-se de uma competição
irresistível, porque além de receber 8 bilhões de cruzeiros em 12 meses, uma
média de 700 milhões por mês, a TV Globo recebe do grupo Time-Life três filmes
de longa metragem por dia – por dia, repito… Só um package, um pacote de três
filmes diários durante o ano todo, custa na melhor das hipóteses, 2 milhões de
dólares” (HERZ, p.220, 2009).
O
Brasil e o mundo estão em efervescência. A tensão é crescente com revoluções
vitoriosas na China e em Cuba. A luta pela independência e soberania das nações
cresce em todos continentes e os EUA colocam em marcha golpes militares por
todo o planeta. A Guerra Fria está em um ponto agudo.
É
nesse quadro que a Comissão de Assuntos Estrangeiros do Congresso dos EUA, em
abril de 1964, no relatório “Winning the Cold War. The O.S. Ideological
Offensive” define: “Por muitos anos os poderes militar e econômico, utilizados
separadamente ou em conjunto, serviram de pilares da diplomacia. Atualmente
ainda desempenham esta função, mas o recente aumento da influência das massas
populares sobre os governos, associado a uma maior consciência por parte dos
líderes no que se refere às aspirações do povo, devido às revoluções
concomitantes do século 20, criou uma nova dimensão para as operações de
política externa. Certos objetivos dessa política podem ser colimados
tratando-se diretamente com o povo dos países estrangeiros, em vez de tratar
com seus governos.
Através
do uso de modernos instrumentos e técnicas de comunicação, pode-se hoje em dia
atingir grupos numerosos ou influentes nas populações nacionais – para
informá-los, influenciar-lhes as atitudes e, às vezes, talvez, até mesmo
motivá-los para uma determinada linha de ação. Esses grupos, por sua vez, são
capazes de exercer pressões notáveis e até mesmo decisivas sobre seus governos”
(SCHILLER, p.23, 1976).
A
ordem estava dada: “informar”, influenciar e motivar. A rede está montada, o
financiamento definido.
O
jornalista e grande nacionalista, Genival Rabelo, exatamente nesta hora,
denuncia no jornal Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro: “Há, por trás do
grupo [Abril], recursos econômicos de que não dispõem as editoras nacionais,
porém muito mais importante do que isso está o apoio maciço que a indústria e
as agências de publicidade norte-americanas darão ao próximo lançamento do Sr.
Victor Civita, a exemplo do que já fizeram com as suas 18 publicações em
circulação, bem como as revistas do grupo norte-americano Vision Inc.” (RABELO,
p.38, 1966).
Mas
é necessário mais. É preciso enfraquecer, calar e quebrar tudo que seja
contrário aos interesses dos monopólios, tudo que possa prejudicar os
interesses das corporações. A General Electric, General Motors, Ford, Standard
Oil, Du Pont, IBM, Dow Chemical, Monsanto, Motorola, Xerox, Johnson &
Johnson e seus bancos J. P. Morgan, Citibank, Chase Manhattan precisam estar
seguros para praticar sua concorrência desleal, para remeter lucros sem
controle, para desnacionalizar as riquezas do país se apossando das reservas
minerais.
Várias
são as declarações, nesta época, que deixam claro qual o caminho traçado pelos
EUA. Nas palavras de Robert Sarnoff, presidente da RCA – Radio Corporation of
America – “a informação se tornará um artigo de primeira necessidade
equivalente a energia no mundo econômico e haverá de funcionar como uma forma
de moeda no comércio mundial, convertível em bens e serviços em toda parte”
(SCHILLER, p.18, 1976). Já a Comissão Federal de Comunicações (FCC), em informe
conjunto dos Ministérios do Exterior, Justiça e Defesa, afirmava: “as
telecomunicações evoluíram de suporte essencial de nossas atividades
internacionais para ser também um instrumento de política externa” (SCHILLER,
p.24, 1976).
É
esclarecedor o pensamento do delegado dos Estados Unidos nas Nações Unidas,
vice-ministro das Relações Exteriores, George W. Ball, em pronunciamento na
Associação Comercial de Nova Iorque: “Somente nos últimos 20 anos é que a
empresa multinacional conseguiu plenamente seus direitos. Atualmente, os
limites entre comércio e indústria nacionais e estrangeiros já não são muito claros
em muitas empresas. Poucas coisas de maior esperança para o futuro do que a
crescente determinação do empresariado norte-americano de não mais considerar
fronteiras nacionais como demarcação do horizonte de sua atividade empresarial”
(SCHILLER, p.27, 1976).
A
ação desencadeada pelos interesses externos já havia produzido a falência de
muitos órgãos de imprensa nacionais e, por outro lado, despertado a consciência
de muitos brasileiros de como os monopólios utilizam seu poder de pressão e de
chantagem. Em 1963, o publicitário e jornalista Marcus Pereira afirmava em
debate na TV Tupi, em São Paulo: “Em última análise, a questão envolve a velha
e romântica tese da liberdade de imprensa, tão velha como a própria imprensa.
Acontece que a imprensa precisa sobreviver, e, para isso, depende do
anunciante. Quando esse anunciante é anônimo, pequeno e disperso não pode
exercer pressão, por razões óbvias. É o caso das seções de ‘classificados’ dos
jornais. Mas poucos jornais têm ‘classificados’ em quantidade expressiva. A maioria
dos jornais e a totalidade das revistas vivem da publicidade comercial e
industrial, dos chamados grandes anunciantes. Acho que posso parar por aqui,
porque até para os menos afoitos já adivinharam a conclusão” (RABELO, p.56,
1966).
Não
é difícil perceber o quanto a submissão aos interesses econômicos estrangeiros
levou a dita “grande mídia” brasileira a se afastar da nação. A se tornar, ao
longo dos anos, em uma peça chave da política do Imperialismo. Em praticamente
todos os principais momentos da vida nacional se inclinaram para o golpismo e a
traição. Já no primeiro golpe contra Getúlio, depois, contra sua eleição,
contra sua posse, contra a criação da Petrobras, contra a eleição de Juscelino,
contra João Goulart, contra as reformas de base, apoiando a Ditadura, apoiando
a política econômica de Collor, apoiando Fernando Henrique e suas
privatizações, atacando Lula.
Hoje,
ela novamente tem lado: o das concessões de estradas, portos e aeroportos, o
dos leilões de privatização do petróleo e da necessidade da elevação das taxas
de juros, do controle do déficit público com evidentes restrições aos
investimentos governamentais, ou seja, da aceitação de um neoliberalismo
tardio.
Porque
atuam desta forma? Genival Rabelo deu a resposta: “Um industrial inteligente
desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro me fez outro dia, esta
observação, em forma de desafio: ‘Dou-lhe um doce, se nos últimos cinco anos
você pegar uma edição de O Globo que não estampe na primeira página uma notícia
qualquer da vida norte-americana, dos feitos norte-americanos, da indústria
norte-americana, do desenvolvimento científico norte-americano, das vitórias e
bombardeios norte-americanos. A coisa é tão ostensiva que, muita vez, sem ter o
que publicar sobre os Estados Unidos na primeira página, estando o espaço
reservado para esse fim, o secretário do jornal abre manchete para a volta às
aulas na cidade de Tampa, Miami, Los Angeles, Chicago ou Nova Iorque. Você não
encontra a volta às aulas em Paris, Nice, Marselha, ou outra cidade qualquer da
França, na primeira página de O Globo, porque, de fato, isso não interessa a
ninguém. Logo, não pode deixar de haver dólar por trás de tudo isso…
Outro
amigo presente, no momento, e sendo homem de publicidade concluiu, deslumbrado
com seu próprio achado: ‘É por isso que O Globo não aceita anúncio para a
primeira página. Ela já está vendida. É isso. É isso!’. ‘E muito bem vendida,
meu caro – arrematou o industrial – A peso de ouro’ “ (RABELO, p.258, 1966).
(*) Leandro Severo é delegado à Conferência Nacional de
Comunicação, Secretário Municipal de Comunicação em São Carlos entre 2007 e
2012 e membro do Partido Pátria Livre.
Referências
COLBY,
G; DENNETT, C. Seja feita a vossa vontade: a conquista da Amazônia, Nelson
Rockefeller e o evangelismo na idade do Petróleo. Tradução: Jamari França. Rio
de Janeiro: Record, 1998.
HERZ,
D. A história secreta da Rede Globo. Porto Alegre: Dom Quixote, 2009. Coleção
Poder, Mídia e Direitos Humanos.
RABELO,
G. O Capital Estrangeiro na Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1966.
SCHILLER,
H. I. O Império norte-americano das comunicações. Tradução: Tereza Lúcia
Halliday Petrópolis: Vozes, 1976.
Fonte: OM - Carta Maior/Leandro Severo
Foto: Divulgação

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