quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Em entrevista, Ronaldo Lessa fala sobre acusação

Ronaldo Lessa reacende seu discurso e mira o procurador Anselmo Lopes, que o denunciou por participação no desvio de R$ 5 milhões da obra da então Unidade de Emergência de Maceió. “Eu é que vou processá-lo; vou representá-lo no Ministério Público Federal por crime de calúnia”.

Lessa defende que a denúncia deveria ser dirigida contra o seu sucessor e adversário, o governador Teotonio Viela Filho (PSDB). “Cobre do atual governador, que foi quem pagou”. Mesmo com tantos problemas na Justiça, Ronaldo Lessa se mostra incansável na sua cruzada contra o que considera injustiças, e com a língua sempre afiada, para criticar outras instituições e esferas de todos os poderes. No plano político, ele denuncia que o PSB está virando um partido de direita, critica setores de dentro do próprio PDT, sugere que as eleições brasileiras não são limpas e que pode “ter sido roubado”.

Aos 63 anos, o engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) hoje atua como presidente estadual do PDT e vice-presidente da Executiva do partido na região Nordeste. Ronaldo Lessa foi indicado para atuar como conselheiro no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas só poderia atuar na instituição depois de ser nomeado para algum cargo no Ministério do Trabalho, que é comandado pelo correligionário do PDT, ministro Brizola Neto.

Gazeta. Após um bom período de vitórias, o senhor passa por uma lacuna em eleições. Como é viver entre altos e baixos?

Ronaldo Lessa. Isso faz parte da vida política. Estar fora do poder é um momento de reflexão, mas é bom, faz parte, completa a vida da gente como pessoa. Você precisa vivenciar todos os momentos, um momento de vitória em que representa a população. Mas se você perde, vai experimentar o outro lado. Não vou dizer que volta a ser um cidadão comum porque, quem já exerceu o cargo de governador duas vezes, carrega uma história, de coisas boas, de você ser abraçado, tirar fotos nos lugares, chega no shopping e é reconhecido, tratado com carinho. E às vezes, o contrário, você é perseguido, tem o lado dos que não gostam, dos que estão satisfeitos com o seu afastamento.

Muitos amigos do então governador se afastaram?

Sim, porque tem muita gente que só está ao redor do cargo, da função que você ocupa. [Amigos] da pessoa, são poucos.

O que mais lhe decepcionou nesses anos todos de política?

O que mais me decepcionou foi a gente ter lutado tanto para construir uma democracia, e muitas pessoas não estão mais aqui, morreram, como é o caso do Manoel Lisboa, que foi assassinado pela ditadura, da Gastone, do Manoel Fiel Filho, de Rubens Paiva, do Jaime Miranda... e hoje a gente vê as pessoas tratarem dessa democracia com desdém, com desrespeito. Isso preocupa. A gente precisa consolidar as nossas instituições, quer seja do Judiciário, Legislativo, Ministério Público ou Executivo, de forma a consolidar a democracia, os direitos humanos, as liberdades individuais e coletivas.

Como o senhor recebeu a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) de desvio de R$ 5 milhões na obra da então Unidade de Emergência?
Com indignação. É isso que eu estava dizendo quando me referi que a gente lutou tanto, teve pessoas que não sobreviveram para ver a democracia, e chega agora o Ministério Público, instituição fortalecida pela Constituição de 1988, que não tem cumprido o seu papel. Recebi a denúncia com indignação. Não tenho nenhuma participação nisso, a não ser trazer o dinheiro. Eu trouxe mais de R$ 15 milhões do governo federal para aplicar naquela obra.

Mas a pergunta chave é o que aconteceu naquela obra, naquela licitação?

Quem tem que responder é o Teotonio Vilela [governador do Estado, eleito em 2006], não sou eu, eu não era o governador. Eu saí no dia 30 de março de 2006, eu não fiz nem a concorrência, quem fez foi o Luis Abílio [ex-governador, vice de Lessa]. Se ela é nula, não fui eu que fiz, e ela não é nula, tenho certeza que o Ângelo [Bezerra, ex-presidente da Comissão de Licitação] e as outras pessoas que estão sendo acusadas vão provar que não devem, mas não é responsabilidade minha. Muito menos a obra, se ele [o procurador da República Anselmo Lopes, que fez a denúncia] diz que em 2009 descobriram que pagaram tudo, quando não foi feito tudo, apenas 70%. Então, ele cobre do atual governador, que foi quem pagou, mas me acusar... Por isso, eu é que vou processá-lo, vou representá-lo no Ministério Público Federal por crime de calúnia.

Por que o senhor enfrenta tantos problemas na Justiça?

Porque tenho coragem de fazer o contraditório. As pessoas preferem se agachar, fazer as trocas das benesses, e não é o meu caso. Eu não vim para enganar, nem para ser subserviente a ninguém. Se você assume uma liderança, se chega para o povo e se coloca como seu condutor, seu líder, você não pode depois traí-lo, quer seja com medo do Judiciário, do Ministério Público, seja de quem for. Eu fiz enfrentamento com a Assembleia Legislativa também, não foi só com o Judiciário. Agora, porque o Judiciário quer dinheiro eu vou ter que dar dinheiro ao Judiciário? Não. Eu não tenho uma folha para pagar? Eu não tenho um povo? Se prometi trabalhar para os pobres, eu vou trabalhar para essa elite? Para esses ricos?

Como assim, “o Judiciário quer dinheiro”?

Foi assim que começou a minha grande confusão com o Judiciário. Eles queriam porque queriam que eu aumentasse o duodécimo. É uma visão de direita elitista. Lamentavelmente, a Justiça é muito conservadora. Precisa mudar.

Quando governador, o senhor falava de uma máfia no Judiciário. O senhor se arrepende desse choque que teve com a Justiça?

Não, não me arrependo.


Isso não prejudicou a sua carreira política?

Pode ter prejudicado, mas foi bom para Alagoas. Quando eu entrei aqui, havia vários saques que eram feitos na boca do caixa, de dinheiro do Estado. Juízes determinavam esses saques. E o meu confronto com a Justiça era para acabar com isso. Mesmo que o Estado devesse alguma coisa, era preciso que se respeitasse. Não tem débito do Estado com tanta gente? Quantas pessoas estão morrendo, outras com câncer, outras doentes, e não foram pagos os precatórios? Por que esses apaniguados de certos setores da Justiça tinham direito a receber na frente de todo mundo? Eu fiz esse enfrentamento, fui processado; eu, hoje, pago por isso, mas pago satisfeito porque estou com minha consciência tranquila. Eu posso dormir em paz. Não importa quantos juízes e desembargadores não gostem de mim.

O senhor acha que está difícil convencer o eleitorado sobre isso, já que perdeu as últimas eleições?

Não sei nem se as eleições são limpas. Hoje, eu tenho dúvida. Mas pode não ser isso, pode ser porque eu esteja ultrapassado, pode ser a minha capacidade de comunicar. Já estou com mais de 60 anos; pode ser por tudo isso que eu estou perdendo eleição. Ou posso ter sido roubado. A gente tenta até hoje, com o voto eletrônico no país, mostrar que esse sistema não é seguro. É preciso que a gente aperfeiçoe. Todo país que usa esse sistema registra, além do número, a materialização do voto. Só o Brasil que não registra. Os países mais desenvolvidos do mundo não usam esse sistema, então, por quê? Nós somos melhores do que eles? Só nisso?

O senhor suspeita ou tem certeza que o nosso sistema eleitoral é falho?

Eu tenho certeza que esse sistema não é completo, absoluta certeza.

Com mais de seis anos no cargo, o governador ainda fala em herança maldita. Como o senhor avalia o governo dele?

O pior possível. Foi o maior desastre que a gente podia ter. Foram oito anos para a gente equacionar, fazer o ajuste fiscal, e depois entregou-se [o cargo] para um irresponsável do nível dele, que só fez acabar com o Estado de Alagoas.

Como o senhor vê o atraso de oito meses para utilização de R$ 10 milhões enviados pelo governo federal para combater a seca?

Esse é o retrato do governo Teotonio Vilela, o maior descomprometimento. Se no segundo mês o dinheiro não chegou, disseram que estava numa conta errada, você descobria isso, rapaz. Mas é um governo que não tem nenhum compromisso com o social, com a fome, com a seca, com as pessoas que precisam, com o povo. Esse governo é o governo da elite, fica de costas para o povo, governando para a cooperativa dos usineiros e para a burguesia do Estado de Alagoas.

O que falta para o Programa Brasil Mais Seguro dar certo aqui?

É difícil porque a parte que precisa ser feita aqui não é feita. Por exemplo, tem que contratar gente, tem que valorizar o profissional, tem muita coisa, por mais que o governo federal queira ajudar, ele não pode substituir o governo local. Gostaríamos que desse certo porque não aguentamos mais haver essa matança. Já que o governo federal tomou Alagoas como exemplo, é possível que melhore alguma coisa porque tem um esforço concentrado aqui.

A revista The Economist apontou Alagoas como o pior cenário político para se investir. Isso vai contra o discurso tucano?

A revista fala por si. Quem é que quer investir num Estado que não tenha segurança? Fora outras acusações, dizem que é difícil se investir aqui pelo nível de corrupção que existe.

Em que áreas de gestão há mais dificuldades?

Além da Segurança, eu digo duas graves áreas. A Educação, que a gente cai assustadoramente, apesar de todo o esforço que fizemos em oito anos... nós fizemos dois concursos, criamos duas universidades, dobramos a quantidade de vagas, construímos dezenas de escolas novas, com espaço, com dignidade, com elevador para deficiente físico, recuperamos centenas de escolas, valorizamos os profissionais de educação, chegamos à isonomia, tudo isso foi feito para a gente começar a ver um abandono total. Hoje, você vê essa grande quantidade de escolas fechadas, de alunos que perderam o ano; é terrível. Outra é a Saúde. A Dilma disse que ia dar uma atenção especial à Saúde. Não é só um problema da gente, mas aqui é pior, é mais grave porque eles dão as costas. O governo é elitista, de exclusão social, então você vê os médicos vaiarem [o governador]; ele entrou na Assembleia e foi vaiado lá dentro. Você vê a situação da Santa Mônica, do HGE. Há pouco dias, saiu dizendo que tinha vinte hospitais fechados, os médicos abandonando seus postos porque não tinham estímulo para trabalhar.

O que o senhor espera da gestão do Rui Pameira?

Eu não posso esperar nada porque ele vem do PSDB. Eu só tenho a pior impressão possível. Será uma surpresa se ele fizer um bom governo, e espero. Era bom que fizesse, porque Maceió precisa disso. Ele escolheu um partido elitista, neoliberal. Como é que eu posso ter uma expectativa boa desse rapaz? Não posso. Aliás, ele já chegou botando defeito no passado e só fez dizer que não consegue fazer nada. O começo dele não é nada bom, o cheiro é muito ruim.

O senhor militou durante muitos anos no PSB. Hoje, o partido tem o Eduardo Campos como presidenciável...

[...interrompe a pergunta] Espero que ele não seja [presidente], porque ele não está preparado. Sou muito mais a Dilma, o PSB está indo para a direita. Quem são os novos quadros do PSB aqui, que eles ficam alardeando? Alexandre [Toledo] já entrou no PSB? É esse? Os usineiros estão entrando no PSB? Esse não é o PSB que eu militei, não é o PSB do Miguel Arraes.

E 2014?

Ah, não sei, a Deus pertence. Não tenho a menor ideia, estou preocupado com o dia de hoje. Vamos aproveitar cada dia para tentar construir o partido, fazer quadros. Nós estamos fracos de quadros políticos, até o PDT tem muita gente que não tem compromisso com o PDT; está com o mandato do PDT, mas não tem compromisso com a sua história, com o seu estatuto.

Mas, mesmo sem dizer o cargo, o senhor será candidato?

Se for necessário, eu serei. Se não for necessário, não serei. Gostaria muito que já fosse um sistema de financiamento público; que esse ano o Congresso fizesse a reforma política. É muito difícil participar de uma eleição, sobretudo majoritária, quando você enfrenta o poder econômico. Fazer esse enfrentamento sem recursos é muito difícil. Por isso eu não sei se vou ser candidato em 2014.

Fonte: Gazeta de Alagoas
Foto: Divulgação

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