A qualidade da
vida urbana é um ingrediente-chave na vida da maioria das famílias brasileiras.
Com 80% de nossa população urbana e 50% metropolitana, são variadas as
dimensões definidoras dessa qualidade. Entre essas dimensões, ocupa um
lugar-chave a questão da mobilidade. De forma simplificada, podemos dizer que
cada integrante da sociedade urbana dedica ao trabalho ou atividade remunerada
um terço das suas 24 horas diárias. Outro terço é usado para dormir. Sobram
oito horas diárias para todas as demais atividades que não a obtenção de renda monetária, isto é, para as atividades ligadas à
fisiologia individual, à convivência e lazer com amigos e família, a compras e,
por vezes, ao aperfeiçoamento cultural e profissional. Ao menos em tese, cada
um é soberano em relação a este tempo de existir.
O tempo de existir
é essencial e universalmente afetado pelos deslocamentos
residência-trabalho-residência. Para quase todos, o tempo gasto nos
deslocamentos é monótono, angustiante e, de certa forma, jogado fora, o que
aponta para a óbvia importância da malha urbana, dos serviços de transporte
público ligados ao deslocamento pela malha e à organização, tipo, quantidade e
modalidades de utilização de veículos de transporte de pessoas e mercadorias.
Mesmo quando o habitante que se desloca a pé em direção ao trabalho ou
atividade, muitas vezes é obrigado a fazer outros deslocamentos que dependem da
mobilidade urbana. Se o cidadão urbano, notadamente o pobre, tiver necessidade
de horas adicionais no trabalho, é mais punido.
No Brasil, cresceu
de forma explosiva a população de veículos automotores. Creio que, no Rio,
andou próxima a 10% ao ano; em Brasília, por mais de uma década, cresceu cerca
de 15% ao ano. Taxas parecidas foram vivenciadas nas demais cidades, inclusive
nas médias. É o resultado de uma política míope que privilegiou, no combate à
inflação, o corte do investimento público e, para
sustentar a atividade econômica, facilitou e estimulou um intenso endividamento
familiar. A opção governamental por estimular a venda de veículos – houve
momentos em que a entrada zero foi combinada com o pagamento em 90 prestações –
possibilitou à indústria automobilística um céu de brigadeiro nesta última
década, porém o “nanismo” e a hipertrofia míope e de curto prazo do
investimento na cidade engendrou o caos.
Muitos festejaram
o acesso ao veículo automotor próprio, ignorando o custo do combustível, da
manutenção e da fiscalidade associado ao “patrimônio” da posse do veículo. É
comum a família endividada, pressionada pelos custos, deixar o veículo próprio
estacionado e voltar ao péssimo transporte público. O pior acontece quando
quer vender o veículo já usado e descobre que o mercado de
segunda mão não paga sequer o correspondente à dívida residual. Por outro lado,
o congestionamento tem uma dimensão universal, que incorpora desde o ônibus
velho ao BMW. Somente escapa o arquimilionário que tem heliporto na residência
e no escritório. Todas as faixas etárias e níveis de renda são incomodados pela
degradação da qualidade de vida. Este pano de fundo tem tudo a ver com o início
das manifestações.
O aumento das
tarifas de transporte coletivo urbano foi gota d’água que produziu uma
metamorfose espetacular. Uma novíssima geração de brasileiros foi para as ruas
protestar e se situar como sujeito que faz história. O paradigma das antigas
mobilizações foi estruturalmente modificado com a rapidez do uso de redes
sociais. O tradicional “correio” boca-a-boca e alguma liderança convocatória
não explicam a velocidade, intensidade e espacialidade com que o aumento
tarifário se transformou num fenômeno político de massa que, rapidamente,
preencheu um primeiro ato com uma gigantesca lista de rejeições, reclamações,
sugestões e reivindicações. Sem a pretensão de interpretar esse fenômeno, quero
colocar algumas questões para reflexão.
A questão urbana
inspirou toda uma pauta que se iniciou no transporte e se encaminhou para os
serviços de saúde, educação e segurança. A corrupção foi colocada como variável
explicativa, e a pauta transbordou, colocando sob acusação o sistema de
partidos, as representações políticas e algumas instituições públicas mais
visíveis. A pauta cresce e tende a se diversificar. Lendo os cartazes, é
possível perceber ânimo, ironia, amor, desinformação etc.
É surpreendente e
sintomática a rejeição da ideia do “circo” substituindo o “pão”. O futebol,
alegria do povo, foi colocado entre parêntesis. Desde a mutilação do Maracanã,
no Rio de Janeiro (a reforma custou 1,2 bilhão de reais para reduzir à metade o
número de lugares) passando pelo Mané Garrincha (que, em Brasília, foi iniciado
com orçamento de 650 milhões de reais e custou 1,4 bilhão de reais) e com os
demais estádios das cidades brasileiras sendo convertidos em “casas de ópera”
(onde o povo brasileiro não pode mais torcer em pé e o povão terá que pagar uma
entrada cara e proibitiva), cristalizou-se, pela visibilidade e interesse do
povo brasileiro pelo futebol, a dimensão de corrupção (provável) e
subserviência à FIFA.
O governo
brasileiro abriu mão de sua soberania, ao autorizar a venda de bebida alcoólica
à minoria que pode pagar ingresso; atropelou o espaço urbano atendendo à
exigência da FIFA de uma circunferência de isolamento de três quilômetros em
torno de cada estádio utilizado nos jogos da FIFA (essa exclusão foi anunciada
pelo Ministério do Planejamento, quando propôs feriado no período dos jogos da
FIFA, a partir da pergunta de como ficaria o congestionamento). O povo leu tudo
isso como um imenso “conto do vigário”, que macula a paixão pelo futebol com
renúncia à soberania e pretexto para processos de corrupção. O povo formou uma
grande “torcida” participativa.
Sei que muitos
manifestantes tem uma reflexão própria bastante amadurecida, e é interessante
observar os “diálogos” dos cartazes, por exemplo: ao lado de um cartaz que diz;
“imposto zero”, está outro que diz “mais verbas para a educação e saúde”. Os
cartazes, em uma sociedade televisiva, são feitos e empunhados por muitos
manifestantes com a óbvia preocupação de serem captados pela lente do fotógrafo
e da televisão. Ilustra isso um cartaz em português e inglês, cujo autor
afirmou que, assim, tinha maior probabilidade de ser captado pela TV
internacional (o “eu”, corporificado no cartaz, está aqui; eu existo!).
Estou certo que
haverá o debate e prevalecerá a vontade política da maioria. Estou certo que
estas manifestações são apenas a primeira voz que apontará para um projeto
nacional. Sei que esta é a provável evolução da novíssima geração de atores
políticos brasileiros. A preliminar do “eu” tende a constituir o “nós”. Este
resgate da participação pública, desde o início, está acompanhado pelos
símbolos da nação: bandeiras, hinos, músicas.
A manifestação, no
sentido operacional, é majoritariamente, uma “torcida” pelo Brasil, e tem uma
componente saudável de festividade, como a linda a manifestação dos pais com
seus bebês. É deslumbrante ver gente espontaneamente fornecendo comida
para os jovens que estavam acampados exigindo o diálogo com o Governador Sérgio
Cabral, e também para os guardas que ali estavam bloqueando o acesso. Há um
simbolismo na vinda de manifestantes da Rocinha com cartazes dizendo “queremos
melhor ensino e saúde na comunidade” e “dispensamos o teleférico”.
Como velho
professor, estou encantado em ver a novíssima geração representar nossa gente.
Sou da geração que abriu os olhos políticos com o suicídio de Vargas e a
campanha “O petróleo é nosso”; militei pelo novo Estado de direito desde o
exílio e até a Constituição de 1988, e assisti sua mutilação por mais de 50
Emendas Constitucionais. Não aceitei o Consenso de Washington. Vi a ideia da
“globalização” ser vendida como ensina um velho provérbio turco: “se quereis
vender um corvo, pinte-o rouxinol”.
Tenho confiança na
acelerada pedagogia das manifestações. É acelerada a educação política dos
manifestantes. Um povo que se manifesta, no limite, tudo pode; transporta,
dentro de si, um futuro melhor. Dentro do coração de cada manifestante há a
potencialidade da civilização brasileira. Este é um passo decisivo para a periferia
do mundo e o início de uma modificação significativa das relações geopolíticas
do Brasil com a hispanoamérica e com a África. Um gigantesco passo para a
história brasileira foi ensaiado com as manifestações convocadas pela má
qualidade da vida urbana.
*Carlos
Lessa é ex-reitor da UFRJ e ex-presidente do BNDES.
Fonte: OM - Carlos Lessa | 28 de junho de 2013
Foto: Divulgação

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