Por Igor Ojeda, da Repórter Brasil
Todos os dias, quando Cristina*
acordava, o mundo ainda estava escuro. Era rotina: inclusive aos sábados e
domingos, a garota de 12 anos levantava às quatro e meia da madrugada. Não dava
tempo de ficar rolando na cama. Tinha de se aprontar logo e ir ao restaurante
da tia ajudar com a arrumação. Só três horas depois, por volta das sete e meia
da manhã, é que tomava banho para ir à escola.
Na hora do almoço, voltava ao
restaurante, onde ficava até as quatro e meia da tarde limpando, ajudando no
caixa, fazendo entrega. Mas seu expediente não terminava aí. Retornava à casa
da tia e levava mais duas horas limpando, lavando, passando. Depois, jantava,
fazia a lição de casa e ia para a cama. No dia seguinte, às quatro e meia, o
despertador tocava…
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), em setembro de 2011 haviam pouco mais de 250 mil crianças e
adolescentes exercendo trabalhos domésticos por todo o Brasil: 67 mil na faixa
10 a 14 anos, 190 mil na faixa de 15 a 17 anos. Apesar de as trabalhadoras
desse setor terem alcançado uma vitória histórica recentemente, com a entrada
em vigor, no dia 3, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que garante os
mesmos direitos trabalhistas de outros segmentos, o trabalho infantil doméstico
ainda carece de visibilidade: especialistas destacam que esse é um problema
que, apesar de grave, permanece oculto.
O trabalho infantil doméstico é uma das
atividades incluídas na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista
TIP) criada pelo decreto 6.481, assinado em junho de 2008 pelo
então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e baseado na Convenção 182 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT). Constam da relação 89 atividades,
com suas descrições e consequências para a saúde de crianças e adolescentes que
as desempenham. “Por ter sido incluído na Lista TIP, o trabalho doméstico não
pode ser exercido por pessoas que não completaram 18 anos”, explica Isa
Oliveira, secretária-executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do
Trabalho Infantil (FNPETI).
Mundo escuro
… com o mundo igual de escuro, Cristina acordava, e o martírio se
repetia. Alguns meses antes, a pequena pernambucana morava com a mãe, o
padrasto e a irmã de dois anos no bairro da Mangueira, no Recife – tinha mais
quatro irmãos por parte de pai. Apenas estudava. A mãe, uma moça de seus trinta
anos, era doméstica e sustentava as duas filhas com a ajuda do marido, que
fazia coleta de sangue numa clínica na cidade.
Foi então que começou a ter problemas
de coluna, o que a impediu de continuar trabalhando. Os gastos foram ficando
cada vez mais apertados quando veio a “solução”: a irmã do pai de Cristina
estava precisando de alguém para ajudá-la em casa e no restaurante. Mandou a
filha com mala e tudo para o novo lar, não muito longe dali, também na
Mangueira…
Isa Oliveira cita os dados do Censo
2010 para ilustrar a gravidade da situação. Em todo o Brasil, das estimadas 3,4
milhões de crianças e adolescentes trabalhando, 7,5% realizam serviços
domésticos. A região Centro-Oeste é a de pior incidência em números
proporcionais (9%), seguida das regiões Norte (8,5%), Nordeste (8%), Sudeste
(7%) e Sul (6%). Ela chama a atenção, no entanto, para a evidente
subnotificação de casos.
“Esses dados não expressam toda a
dimensão do problema porque o Censo não coleta informações sobre os afazeres
domésticos, ou seja, o trabalho infantil doméstico nas próprias casas das
crianças. Há uma dificuldade em relação a esse registro, porque na maioria das
vezes não é identificado como trabalho, e sim como ajuda. Como as pesquisas são
por autodeclaração, muitas vezes o adulto informa que as crianças não
trabalham, porque o conceito de trabalho está ligado à remuneração. Porém, no
caso de trabalho infantil doméstico, isso não é determinante, não há essa
relação direta”, esclarece a secretária-executiva do FNPETI.
Rotina
… Cristina ia caminhando da casa da tia
até o restaurante, no Jardim São Paulo, e do restaurante para a casa da tia.
Andava também até a escola. Aos sábados, como não precisava estudar, trabalhava
o dia todo, até as nove e meia da noite. Aos domingos, cumpria expediente até o
meio-dia. Eram poucas as horas livres. Aproveitava para visitar a mãe, mas no
mesmo dia à noite tinha de voltar. Afinal, na segunda-feira, às quatro e meia
da madrugada… era hora de pegar no batente.
Por todo esse serviço, a menina recebia
R$ 20 mensais. Não reclamava. A mãe tampouco, pois pensava que a irmã do pai de
sua filha comprava tudo que ela precisava, como roupas novas. Cristina dava
metade do que recebia à mãe, e ficava com a outra metade. Quando precisava de
mais dinheiro, pedia ao pai. Para completar, a tia e o marido a tratavam mal
diariamente. “Me xingavam de vagabunda porque eu não fazia o trabalho direito.
Diziam que como estavam pagando, era para eu fazer direito”, conta. A pequena
não aguentava mais…
De acordo com a Pnad 2011, do total das
crianças e adolescentes no trabalho infantil doméstico no Brasil, 93,8% são
meninas. Chama a atenção também o fato de a grande maioria destas serem negras.
Tal perfil, no entanto, não surpreende se levadas em conta as características do
trabalho doméstico no país, independentemente da idade de quem o exerce. Na
realidade, especialistas apontam que grande parte das domésticas adultas
começou a trabalhar antes dos 18 anos. Paulo Lago, do Centro Dom Helder Câmara
de Estudos e Ação Social (Cendhec), de Recife, explica que a desigualdade
social e a miséria são as primeiras causas dessa situação. “A mãe prefere
entregar a filha para trabalhar numa casa de família a vê-la morrer de fome.”
Isa Oliveira destaca que tais
motivações estão ligadas a outros fatores, como o pouco acesso das crianças à
educação de qualidade, principalmente nos pequenos municípios da área rural, e,
também, a baixa escolarização dos integrantes adultos das famílias, que não
percebem a educação dos filhos como direito e oportunidade. Além disso, há uma
forte naturalização do trabalho infantil doméstico no país. “Existe uma espécie
de camuflagem da exploração nesses casos. No Nordeste e no Norte, é muito comum
crianças serem levadas do interior para casas de famílias nas capitais. A
exploração do trabalho fica oculta sob o manto da proteção: ‘a menina veio
estudar, tem casa, comida’ etc. É difícil até que a própria família e as
crianças compreendam a situação de exploração”, diz Isa.
Violência
… um dia, o marido da tia, um policial,
levantou a sandália para Cristina. Mas ela tinha perdido o medo. “Ele ia me
bater, mas comecei a xingá-lo, dei um chute nele e fui embora”, lembra. Foi
para a casa do avô. A menina continuou indo ao restaurante, mas uma semana
depois não apareceu mais. A irmã do seu pai, furiosa, jogou todas suas roupas
na rua. Não importava: depois de quase um ano, Cristina estava livre.
Ou quase. No novo lar, continuou a
fazer os serviços de casa, para ajudar a esposa do avô. Mas lá a situação era
melhor. Era tratada muito bem e recebia R$ 100 por semana. Acordava mais tarde
e ia direto para a escola. Mesmo assim, quando voltava na hora do almoço,
trabalhava bastante, pois não era “dispensada” antes de lavar a louça do
jantar…
Durante o Seminário Internacional
Infância e Comunicação, realizado entre 6 e 8 de março deste ano em Brasília
(DF), Wanderlino Nogueira Neto, representante brasileiro do Comitê dos Direitos da Criança da ONU, afirmou
que em relação ao Nordeste é possível falar até em escravidão nos casos de
trabalho doméstico infantil, por causa das condições absurdas a que as crianças
são submetidas.
“No Nordeste, infelizmente ainda é
comum escravidão no trabalho doméstico, inclusive com castigos físicos”, disse
ele, que foi procurador-geral de Justiça da Bahia. “A situação afeta até mesmo
familiares. Estamos falando de escravidão mesmo e entre as vítimas estão
crianças, incluindo irmãos e irmãs mais novas. É uma situação em que
espancamentos são comuns.”
A presidenta da Federação Nacional das
Empregadas Domésticas (Fenatrad), a baiana Creuza Maria de Oliveira, sabe bem
disso, já que sentiu na pele tais violações desde que começou a trabalhar como
doméstica, quando tinha apenas dez anos. “Eu fui vítima de espancamento, de
assédio moral, abuso sexual, ato libidinoso… a gente sabe que isso acontece,
que no Nordeste as crianças e adolescentes domésticas comem o resto da comida
da casa, para não jogar no lixo.” Creuza frisa que as consequências do trabalho
infantil doméstico são gravíssimas. A começar pela saúde de quem tem menos de
18 anos, que realizam um tipo de trabalho incompatível com o que seus corpos
ainda em desenvolvimento suportam e lidam diariamente com produtos químicos
utilizados na limpeza das casas. “Além disso, há o abuso sexual e o assédio
moral. A autoestima das meninas fica destruída. Elas crescem com complexo de
inferioridade”, alerta. Isa Oliveira, do FNPETI, lembra que a fadiga causada
pelo trabalho e jornada exaustivos comprometem não apenas a frequência escolar
como também o desenvolvimento cognitivo das crianças.
Educação e saúde
… quando estava na casa da tia,
Cristina sempre chegava com sono à escola. Invariavelmente perdia as duas
primeiras aulas. No fim do ano, ficou de recuperação em três matérias. Mesmo
que tenha trabalhado como doméstica por um período curto se comparado
com a média, sua saúde não foi poupada. Por trabalhar muito em pé, seja na
residência da irmã do pai ou no restaurante, hoje ela sente fortes dores no
joelho. “Cheguei a ir ao médico e ele disse que eu preciso operar.”
Cerca de dois meses depois de ir para a
casa do avô, uma vizinha entregou a sua mãe um folheto do projeto “Do trabalho
infantil à participação”, do Cendhec, que reúne crianças e adolescentes entre
13 e 16 anos, moradores de comunidades de baixa renda do Recife e com histórico
de trabalho infantil, para um processo de formação cujo objetivo é inseri-los
nos espaços de formulação de políticas públicas relacionadas aos direitos de
meninos e meninas. Cristina preencheu o formulário, fez a inscrição e foi
selecionada. Voltou para a casa da mãe e parou de trabalhar…
Paulo Lago, do Cendhec, ressalta um
aspecto delicado do problema do trabalho infantil doméstico: muitas vezes, é a
própria mãe que põe a filha mais velha para tomar conta dos filhos mais novos
enquanto sai para trabalhar – isso quando não chamam afilhadas ou filhas
de vizinhos. Por isso, ele defende que é papel do Estado não somente tirar as
crianças das situações de trabalho infantil, mas também atuar pelo
fortalecimento das famílias de baixa renda, como sua inserção em programas
sociais e a construção de creches, para que os pais tenham onde deixar os
filhos durante o dia. Creuza, da Fenatrad, destaca que, além das creches, é
preciso pensar em escolas de tempo integral, onde crianças e adolescentes
possam, além de estudar, realizar outras atividades, como esportes e cursos de
línguas.
Outro grande obstáculo à luta contra o trabalho infantil doméstico, além da precariedade de políticas públicas preventivas, é a extrema dificuldade de fiscalização das situações de vulnerabilidade. “Esse tipo de violação acontece no interior do lar, que é inviolável segundo a Constituição. Por isso é importante que órgãos como Conselhos Tutelares, Ministério Público do Trabalho denunciem esses casos e busquem alternativas e maior divulgação do problema”, diz Isa Oliveira, do FNPETI, cuja campanha contra o trabalho infantil de junho deste ano terá como mote justamente o trabalho doméstico infantil.
Direitos
Outro grande obstáculo à luta contra o trabalho infantil doméstico, além da precariedade de políticas públicas preventivas, é a extrema dificuldade de fiscalização das situações de vulnerabilidade. “Esse tipo de violação acontece no interior do lar, que é inviolável segundo a Constituição. Por isso é importante que órgãos como Conselhos Tutelares, Ministério Público do Trabalho denunciem esses casos e busquem alternativas e maior divulgação do problema”, diz Isa Oliveira, do FNPETI, cuja campanha contra o trabalho infantil de junho deste ano terá como mote justamente o trabalho doméstico infantil.
Direitos
… No projeto do Cendhec desde junho do
ano passado, para onde vai todas as quartas-feiras, Cristina aprendeu, na
teoria, as consequências do trabalho infantil. Participou de formações, por
exemplo, sobre direitos de crianças e adolescentes, atuação dos Conselhos
Tutelares e violência doméstica e sexual. Também esteve em oficinas sobre
comunicação, para poder exercitar uma visão críticas sobre os meios de
informação.
Aos 14 anos, a menina vê sua vida
melhorar. A mãe, após um tratamento bem-sucedido, parou de sentir dores na
coluna e voltou a trabalhar – faz serviços gerais em uma creche. Cristina não
precisa mais ajudá-la. Hoje, a única obrigação é ir à escola.
* nome alterado para preservar a identidade da entrevistada
Imagem de abertura: Reprodução/Campanha FNPETI contra trabalho infantil
doméstico.
Reportagem
produzida em parceria com Promenino/Fundação Telefônica Vivo, e publicada
também no site Promenino, que reúne
mais informações sobre combate ao trabalho infantil.
Fonte: MCS - http://reporterbrasil.org.br - Igor Ojeda | 9 de abril
de 2013.

Nenhum comentário:
Postar um comentário